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Jurado de morte pelo cara de oitenta e nove

Quando penso que ouvi e li de tudo nesta vida, sempre algo mais surpreendente vem e me prova que a frase que acabei de escrever é algo impossível de afirmar. Quanto mais vivemos, mais situações embaraçosas e novas histórias surgem, mas esta, pessoa que lê, eu diria que jamais estaria no meu script de vida. Ao fazerem uma retrospectiva dos problemas que enfrentei, com certeza quero que lembrem de destacar o dia em que um senhor de oitenta e nove anos me jurou de morte.  Para quem não sabe, eu trabalho num supermercado de bairro perto da minha casa, o que para mim em muitos momentos é uma grande felicidade, mas em outros, é uma tristeza. Por que felicidade? Bom, leitor, é porque eu chego rápido aqui. Eu não preciso ter o esforço de acordar cedo para tomar um café correndo ou pegar um trânsito danado para chegar num lugar que nem ar climatizado tem. Não preciso, também, me lamentar por chegar atrasado em casa depois do expediente, me sentindo anulado pelo fato de ter que ir direto dor...

Não vou desistir

Acordei numa manhã ensolarada pós-reflexão. Quem me viu pesquisando sobre até quando vai o governo do presidente xis pelo simples fato de ter me atrapalhado nas contas e não saber calcular quando é o fim de um governo, ou por pura desinformação, não imaginaria os pensamentos ora malucos ora sensatos que tive na madrugada de hoje. No auge do silêncio noturno, minha mente resolveu atingir o seu pico de agitação. Os pensamentos que vinham e iam eram todos sobre o meu futuro e quem eu sou.  Nos últimos tempos, passei a me sentir muito sozinho. Não digo isso para falar que não tenho ninguém ao meu redor — não, leitor, não vivo no meio de uma floresta rodeado de animais que cuidaram de mim com muito esmero, não. Estou rodeado de gente, gente que, ao não interagir, me faz sentir como se estivesse, de fato, na floresta. Como posso garantir que tenho essa sensação sem nunca ter ido a uma para passar alguns dias? Não sei, mas posso te dar a certeza de que me sinto só mesmo com algumas pessoa...

Ah, que morte mais besta!

Estou revoltado com tudo o que observo e acompanho. Já fiz trinta e cinco anos de morto e estou provando com os meus próprios olhos e sensações algo que sempre me contaram. Não sou nada! Nunca fui nada neste mundo infeliz! Ah, tamanha é a raiva que corre no lugar do sangue que habitava as minhas veias. Quer dizer, então, que tudo o que vivi foi em vão? Nada serviu de nada, o trabalho duro e árduo que tive para criar todos os meus filhos resultou em mais miséria e desconhecimento da minha própria pessoa.  Tudo o que fiz, então, foi passageiro! Vivi uma vida de quase oitenta anos, lutei em guerras e viajei os quatro cantos do mundo, cinco, se contarem alguns outros espaços que não ouso detalhar, porém nada disso ficou registrado na memória de ninguém a não ser a minha. Criei meus filhos, no início da vida e no fim dela, debaixo de um barraco de madeiras e plástico, pois eu costumava mudar de endereço toda vez que a polícia batia na porta mandando-nos nos retirar, e aí eu ia para outr...

Subervsio: de onde vem?

Subervsio, na verdade, não foi uma história "original". Trata-se de um plágio, sim, assumo, um plágio! Retirei a maior parte dos detalhes de Subervsio de outra história de um autor que admiro muito, que começou a escrever porque achou que precisava contar ao mundo o que queria dizer. Estou falando, claro, de Allissom André. Sim, eu me copiei e me dei abertura para a publicação de Subervsio, que vem de um outro escrito chamado "Ignominiam", do início da minha trajetória como escritor.  Como contei algumas vezes, comecei a escrever aos onze anos, histórias clichê e tals, coisas que eu via na televisão e que me davam um aumento de energia (naquelas de, "mamãe, mamãe, olha o que eu fiz!!!") e tentava criar qualquer coisa no meio do nada.  A primeira história que eu criei foi "A Garota Popular", que publiquei no site Fanfics Brasil, com uma antiga colega de escola. Ela adorava uma série que eu nunca ouvi falar, e pegou a personagem desta história (cuj...

Pensamentos

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Numa escura segunda-feira de julho, fria como um cubo de gelo que há dias habitava o fundo de um refrigerador, havia uma mulher cuja expressão mantinha-se tranquila e vazia. Esvaziara tudo o que tinha na cabeça porque, daquele dia cheio e turbulento, atordoada estava. Precisava recarregar as energias e limar os pensamentos para os próximos dias. Suas lembranças voltavam toda vez que fazia aquele mesmo trajeto monótono, mas de que tanto gostava. Ao se sentar na areia e observar os prédios que, de longe, brilhavam com a luz das lâmpadas, sorria e sentia-se acolhida pelos braços de Marcos, seu primeiro e único amor, quem um filho lhe deu e um filho lhe tirou. Mesmo que guardasse com rancor algumas memórias, o toque de Marcos era algo que a deixava reconfortada, pois nunca outro homem a tocaria de novo. Não por opção, mas pela apreensão que sentia ao se aproximar de um. Dava risadas leves toda vez que a onda do mar chegava a seus pés. A temperatura da água não contrastava com a temperatura...

Ah, doce vida

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Esta pode ter sido a primeira foto em que eu estive na vida. O primeiro registro da minha existência neste tão grande mundo que já existe há tanto tempo, e que continuará existindo depois da minha partida. Sempre me pego analisando algumas fotos antigas, e me espanto com a velocidade que o tempo gosta de brincar. Me lembro muito bem de alguns momentos da infância, como num jogo em primeira pessoa, no qual eu sou o protagonista. Quando eu nasci, o mundo ainda era analógico, mas já fazia a transição para um pré-digital. Redes sociais já existiam, internet já existia, celulares já existiam, computadores então... Tudo já estava aqui, só que de modo jurássico. Eu observei e consumi tudo o que o mundo produzia, e usufruí de muitas coisas criadas para mim, e que foram mudando com o passar dos anos e da mudança de fases. Até chegar o momento da minha própria produção, e de mostrar ao mundo a minha voz.  A gente não é nada neste mundo. E isso é muito bom. Porque nos dá liberdade de fazer mu...

O silêncio na poltrona verde

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  Impregnado estava o cheiro de morte naquele escuro quarto, numa chuvosa noite de um triste domingo. Dois homens que se diziam amigos estavam no mesmo cômodo esperando por um momento de triunfo — a passagem de um plano para o outro de maneira bastante incômoda, mas rápida, simbólica e cinematográfica. A baixa luminosidade era um detalhe requerido por Hugo, que tinha Cássio deitado numa grande cama preparada, com um aspecto que lembra muito mais o estilo visual dos móveis da era Vitoriana. O ambiente exalava o sentimento de raiva incumbida, de um desgosto que a língua faria questão de cuspir, e que o cérebro havia tentado em vão esquecer. Hugo estava com o corpo e a mente de Cássio, que já tinha entregado todos os pontos desde que o "amigo" o trancara no quarto escuro. Sabendo que aqueles provavelmente eram seus últimos momentos, o último passou a observar os móveis que guardava dentro do seu cômodo de descanso: uma mesa avaliada em mais de dois mil reais, que com delicadeza ...

Amanhã, ela viverá tudo de novo

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Numa cotidiana reunião noturna, a família Álvaro se sentou de frente para a televisão, com o som mutado, após uma típica partida de jogo de tabuleiro. Os Álvaros presentes eram: Marília (louca por tricotar), Sabrina (amante dos jogos), Lucca (amante de qualquer coisa) e Cíntia (amante de cuidar de todo mundo). Apenas os quatro estavam presentes naquela noite, porque o restante da família ou estava trabalhando ou no hospital, acompanhando Lúcio, que havia sido internado após um acidente em casa. Dentro daquela casa, pelo menos por algumas horas, instaurou-se um clima que não indicava preocupação, pois os problemas aparentemente tinham sido deixados de lado, e uma certa distração ocupou o lugar sem hesitação. Sentada na cadeira de tricô, como a titulou, Marília comentava sobre como os garotos que ela acompanhara na infância tinham crescido. Ela brincou, dizendo que se sentia velha, e que o tricô não a ajudava a se sentir mais jovem. Sabrina, que parara a jogatina para ouvi-la, respondeu ...

Refeição de César

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Senti-me como se estivesse numa majestosa máquina do tempo, ou melhor, como se tivesse saído de uma, pois o lugar em que comi pela última vez era gigantescamente ornamental, e lembrava em cada detalhe as tavernas medievais que víamos pela televisão ou nos livros de história na escola. Aquele ambiente rústico e com baixa iluminação convidava qualquer entusiasta de história para entrar e chamava a atenção de curiosos ou perdidos em busca de uma refeição para fazer naquele dia. Contaram-me que não havia muito tempo que aquele restaurante tinha se instaurado ali, ou seja, era novo. Logo ao entrar, fui recebido por um homem loiro que, por alguma razão, me causava uma leve impressão de que sua origem não era brasileira, mas russa. Ah! Tive que desviar o olhar para um objeto interessante e olhei para as grandes cervejas servidas nas mesas. Ah! Mas eu não bebo. Vim para o local por um simples panfleto que me entregaram perto da rua Margarida, com os dizeres: "Escolha bem, e comerás aqui u...

AMADO SAMAEL

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  Assim que me levantei da cama, senti uma sensação esquisita. Ela era quase inexplicável, uma sensação de pressão no peito, sentia como se fosse morrer (além da forte dor de cabeça). Pensei que pudesse ter sido por conta do brusco movimento que fiz ao levantar, mas isso nunca tinha acontecido antes. Estava nua, precisava me vestir de alguma forma.  O quarto era grande, havia um mosquiteiro envolvendo a cama de cor rosa, com muitos ursos decorando o chão.  — É o quarto de alguma menina. — Logo soltei. Mas assim que comecei a olhar melhor, vi que tinham brinquedos sexuais na gaveta do guarda-roupa, e logo associei a uma mulher.  Eu não me lembro de ter visto uma quantidade tão grande de brinquedos sexuais guardados em um só lugar. Essa pessoa parece ser tarada ou muito necessitada — de qualquer modo, eu segui procurando mais e mais evidências para me localizar melhor. Fato era que não sabia onde eu estava, ou o que eu fazia ali. Achei algumas roupas ainda usáveis, e d...