Jurado de morte pelo cara de oitenta e nove
Quando penso que ouvi e li de tudo nesta vida, sempre algo mais surpreendente vem e me prova que a frase que acabei de escrever é algo impossível de afirmar. Quanto mais vivemos, mais situações embaraçosas e novas histórias surgem, mas esta, pessoa que lê, eu diria que jamais estaria no meu script de vida. Ao fazerem uma retrospectiva dos problemas que enfrentei, com certeza quero que lembrem de destacar o dia em que um senhor de oitenta e nove anos me jurou de morte.
Para quem não sabe, eu trabalho num supermercado de bairro perto da minha casa, o que para mim em muitos momentos é uma grande felicidade, mas em outros, é uma tristeza. Por que felicidade? Bom, leitor, é porque eu chego rápido aqui. Eu não preciso ter o esforço de acordar cedo para tomar um café correndo ou pegar um trânsito danado para chegar num lugar que nem ar climatizado tem. Não preciso, também, me lamentar por chegar atrasado em casa depois do expediente, me sentindo anulado pelo fato de ter que ir direto dormir pelo cansaço, e acordar naquele lugar que falta pintura. Todavia, sinto tristeza porque trabalho quase todos os dias da semana naquele lugar, e principalmente, porque isso já tem muito tempo. É o meu primeiro emprego, e eu nem sou mais adolescente. Já me disseram que isso foi falta de projeção de carreira e planejamento pessoal, não preciso que você também me diga isso.
Mas um fato curioso me chamou a atenção.
Eu sempre atendo pessoas irritadas, o que é normal, pois o ser humano é naturalmente um pouco irritado — mesmo eu odiando este detalhe do ser. Estou apenas trabalhando, tentando ganhar o meu dinheiro para viver neste sistema que me inseriu sem eu pedir e que me faz e fará sofrer até a minha última palavra (ou até mesmo depois disso, caso eu morra já impossibilitado de falar), e algumas pessoas completamente desocupadas vêm aqui para me dar desaforo. Me estressa quando crianças indecisas vêm comprar coisas para comer e voltam para os corredores, atrasando a fila. O que me deixa ainda pior, é quando as pessoas pobres de espírito vêm gritando pelos espaços achando que estão numa grande comédia brasileira, como se fossem à praia logo depois das compras do supermercado para fazer uma grande bagunça. Qual é, leitor, eu sou apenas um jovem que queria estar fazendo qualquer outra coisa senão trabalhando neste verão tropical.
Um dia, um senhor de oitenta e nove anos, como disse antes, veio comprar algumas frutas secas. Eu não entendo a graça que os mais velhos veem em tâmaras, ameixas e passas, mas o cara que estava na fila estava com duas pequenas bacias cheias delas. Ele aparentava estar bem cansado, mesmo que de pé, sua voz, quando a ouvi, entrou nos meus ouvidos e lembrou a voz do meu avô paterno.
— É para passar as duas bacias. — Ele disse, quando chegou a sua vez. O senhor me encarou profundamente, como quem estivesse checando se eu realmente soubesse fazer o que eu faço todo dia há anos.
— Sim, eu sei, senhor. Boa tarde. — respondi, e já voltei para a minha função.
— Não precisa ser ignorante comigo. Você, se tiver sorte, um dia chega no meu estado.
— Se isso é a sorte, qual seria o azar? — logo quando perguntei, as pessoas que estavam na fila se revoltaram contra mim. Ouvi vaias, pedidos (do tipo "Respeita o seu Antônio") e outras solicitações para eu ignorar o velho e seguir.
— O que quer dizer com isso?
— Nada, meu senhor, apenas estou fazendo o meu trabalho. Fazendo o que sei fazer.
— Pode até saber passar produtos, mas não sabe como atender bem um senhor de idade.
— Oh, meu vô. Eu nada fiz para você, e durante todos esses dois minutos e meio, a única coisa que eu disse para você, foi que eu sei que é para passar as duas bacias.
— Está me chamando de louco, garoto? — questionou Antônio, que se impôs sobre o balcão. — Você não faz ideia de com quem está falando, né garoto?
— Eu não faço mesmo, senhor. Eu te vi pela primeira vez hoje. — olhei de relance para a fila, e já não sabia se as pessoas estavam com raiva de mim por "enfrentar" o ancião, ou porque eu demorei muito com o atendimento. — Mas senhor, se você quiser, eu posso chamar o meu gerente, e aí você pode conversar com ele sobre mim. — pensando bem, se eu fosse demitido, poderia ter um motivo a mais para procurar alguma coisa melhor.
— Eu sou macho o suficiente para te enfrentar, não é porque você tem idade para ser meu bisneto que vou deixar você falar desse jeito comigo.
— Mas aqui é o meu trabalho, senhor. Eu preciso que você saia para que eu possa atender os outros.
— Não será aqui, nem hoje. Amanhã, às nove horas, de frente para a praça Horácio, quero te ver. Se você arregar, venho até aqui, não terás escapatória.
— Ah, meu deus! — exclamei. — Da noite ou da manhã? Prefiro que seja de manhã, senhor, estou com menos energia nesse horário. — eu disse. Se ele fosse me matar, que fosse antes de eu ir trabalhar, oras. — Tem coragem de ferir e matar esta jovem alma, senhor? Porque não vai atrás de alguém com o seu tamanho, digo, sua idade? — tive que me corrigir, pois ele está do mesmo tamanho que eu.
Antônio, o ancião, que disse ter sido importante no passado, não me respondeu. Olhou com desdém, e deixou o horário combinado comigo. No fim do dia, contei tudo para o meu chefe, e o avisei que no dia seguinte só entraria para trabalhar depois que resolvesse as pendências com o meu novo bisavô. Dormi como se estivesse no céu. A lua brilhava naquela noite como se fosse sol.
Quando acordei, vesti a minha melhor roupa de luta, e me direcionei até a praça Horácio, no horário combinado, e me sentei no banco da praça para ler um jornal. Talvez, camuflado, o senhor não percebesse a minha presença. Ali, fiquei por muitas horas. Até dormi, e no meu sonho, disse para mim mesmo que não era sonho, e sim a morte, e que o senhor me pegara de surpresa enquanto repousava na praça. Acordo apenas com um barulho muito alto, um anúncio do carro de som, carro funerário, dizendo as seguintes palavras:
"Nota de falecimento. Faleceu na manhã de hoje, às nove em ponto, aos oitenta e nove anos de idade, o senhor Antônio Aparecido da Silva. Antes de ter sido um dos secretários da prefeitura, foi um policial muito conhecido na cidade na juventude, e deteve muitos malfeitores. Morreu depois de escorregar no sapato que usaria para sair de manhã"
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