Ah, que morte mais besta!
Estou revoltado com tudo o que observo e acompanho. Já fiz trinta e cinco anos de morto e estou provando com os meus próprios olhos e sensações algo que sempre me contaram. Não sou nada! Nunca fui nada neste mundo infeliz! Ah, tamanha é a raiva que corre no lugar do sangue que habitava as minhas veias. Quer dizer, então, que tudo o que vivi foi em vão? Nada serviu de nada, o trabalho duro e árduo que tive para criar todos os meus filhos resultou em mais miséria e desconhecimento da minha própria pessoa.
Tudo o que fiz, então, foi passageiro! Vivi uma vida de quase oitenta anos, lutei em guerras e viajei os quatro cantos do mundo, cinco, se contarem alguns outros espaços que não ouso detalhar, porém nada disso ficou registrado na memória de ninguém a não ser a minha. Criei meus filhos, no início da vida e no fim dela, debaixo de um barraco de madeiras e plástico, pois eu costumava mudar de endereço toda vez que a polícia batia na porta mandando-nos nos retirar, e aí eu ia para outra cidade tentar uma vida mais digna.
Meu filho mais novo dizia para mim que queria morar debaixo da ponte, pois, lá, não iam mandar a ponte se retirar e ir para outro lugar. Esperto. O outro mais velho disse que a ponte poderia desabar em cima da gente enquanto dormíamos. Tive bons filhos, que herdaram a miséria da família.
Ah, tamanha é a tristeza que sinto. Nem lágrimas tenho para chorar, mas que diferença faz? Já que muito antes de morrer daquela forma tão besta, já não chorava por esgotar qualquer líquido que fosse.
A minha morte? Ah, leitor. Caminhava na rua Horácio sob o sol de meio-dia, naquele típico verão brasileiro. Vestia uma camiseta social, pois disseram-me que arrumaria um emprego, e eu estava a caminho da entrevista. A calça preta dava um "Olá!" para o mocassim que se aconchegava no meu velho e cansado pé. Dava um "Oi" para os vizinhos que me paravam na rua perguntando se eu precisava de macarrão, água ou colchão. Dizia-lhes que não, que tudo estava certo — mentira, nada estava nos conformes. Jamais ia dizer que estava com dificuldade, vestido daquele jeito, com a roupa guardada de um dos defuntos de dona Selma, já que todos os seus maridos morriam pouco tempo depois de casados com ela.
Um cachorro desgovernado veio correndo assustado, um cachorro grande até, que me atropelou e que fez voar pela calçada. Ali, debaixo do sol, o meu corpo ficou. O pessoal se reuniu em volta do recém-defunto e começou a lamentar. Ouvi dizerem, agora aqui de cima, que se eu esperasse mais um pouco, dariam uma ajuda de custos. Oh, meu Deus! Esperei oitenta anos.
Fico grato por estar do outro lado. Não sinto fome. Até porque, não comemos. Mas, se tem uma coisa pior do que morrer atropelado por um cão vira-lata, depois de tanto lutar pra viver e mostrar uma vida ativa, é ser esquecido pelos seus sucessores. Observo aqui de cima, com tristeza, que nenhum dos meus filhos teve filhos que soubessem da história deles. Eles esconderam ao máximo a pobreza que passaram, só que não se atentaram, no meio disso tudo, a que estavam apagando a história de seu velho pai. Tudo o que eu fiz tem como resultado a vida de meus próprios netos, e nenhum deles sabe nem o meu nome.
Ah, que vida mais inútil.
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