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Amanhã, ela viverá tudo de novo

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Numa cotidiana reunião noturna, a família Álvaro se sentou de frente para a televisão, com o som mutado, após uma típica partida de jogo de tabuleiro. Os Álvaros presentes eram: Marília (louca por tricotar), Sabrina (amante dos jogos), Lucca (amante de qualquer coisa) e Cíntia (amante de cuidar de todo mundo). Apenas os quatro estavam presentes naquela noite, porque o restante da família ou estava trabalhando ou no hospital, acompanhando Lúcio, que havia sido internado após um acidente em casa. Dentro daquela casa, pelo menos por algumas horas, instaurou-se um clima que não indicava preocupação, pois os problemas aparentemente tinham sido deixados de lado, e uma certa distração ocupou o lugar sem hesitação. Sentada na cadeira de tricô, como a titulou, Marília comentava sobre como os garotos que ela acompanhara na infância tinham crescido. Ela brincou, dizendo que se sentia velha, e que o tricô não a ajudava a se sentir mais jovem. Sabrina, que parara a jogatina para ouvi-la, respondeu ...

Refeição de César

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Senti-me como se estivesse numa majestosa máquina do tempo, ou melhor, como se tivesse saído de uma, pois o lugar em que comi pela última vez era gigantescamente ornamental, e lembrava em cada detalhe as tavernas medievais que víamos pela televisão ou nos livros de história na escola. Aquele ambiente rústico e com baixa iluminação convidava qualquer entusiasta de história para entrar e chamava a atenção de curiosos ou perdidos em busca de uma refeição para fazer naquele dia. Contaram-me que não havia muito tempo que aquele restaurante tinha se instaurado ali, ou seja, era novo. Logo ao entrar, fui recebido por um homem loiro que, por alguma razão, me causava uma leve impressão de que sua origem não era brasileira, mas russa. Ah! Tive que desviar o olhar para um objeto interessante e olhei para as grandes cervejas servidas nas mesas. Ah! Mas eu não bebo. Vim para o local por um simples panfleto que me entregaram perto da rua Margarida, com os dizeres: "Escolha bem, e comerás aqui u...

AMADO SAMAEL

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  Assim que me levantei da cama, senti uma sensação esquisita. Ela era quase inexplicável, uma sensação de pressão no peito, sentia como se fosse morrer (além da forte dor de cabeça). Pensei que pudesse ter sido por conta do brusco movimento que fiz ao levantar, mas isso nunca tinha acontecido antes. Estava nua, precisava me vestir de alguma forma.  O quarto era grande, havia um mosquiteiro envolvendo a cama de cor rosa, com muitos ursos decorando o chão.  — É o quarto de alguma menina. — Logo soltei. Mas assim que comecei a olhar melhor, vi que tinham brinquedos sexuais na gaveta do guarda-roupa, e logo associei a uma mulher.  Eu não me lembro de ter visto uma quantidade tão grande de brinquedos sexuais guardados em um só lugar. Essa pessoa parece ser tarada ou muito necessitada — de qualquer modo, eu segui procurando mais e mais evidências para me localizar melhor. Fato era que não sabia onde eu estava, ou o que eu fazia ali. Achei algumas roupas ainda usáveis, e d...

Conversa entre ninguém e nada

  Quarta-feira, algum dia de agosto de dois mil e alguma coisa. Quatro funcionárias da limpeza de uma escola se encontram no refeitório, já que seu horário de entrada é às nove e meia. O relógio marca nove e quinze, e todas as quatro, sempre adiantadas, já estão presentes. Edileuza, a mais antiga, já está na empresa há sete anos. É uma senhora de sessenta e oito anos, e ninguém sabe ao certo se já está na idade de se aposentar ou não, considerando as constantes reformas na previdência. Há também a Lúcia (dois anos de empresa, a mais jovem de todas), Carla (recém-chegada, uma mulher madura e bonita) e Ângela, que mal consegue se manter em pé. O relógio marca nove e dezesseis. Lúcia comenta: — Ah, que calorão fez no último domingo — disse ela, enquanto mexia em suas redes sociais. Depois disso, não disse mais nada, tomou seu chá e olhou para o sol, que brilhava fortemente naquela manhã. Minutos depois, antes das nove e dezenove, Edileuza comenta: — Ah! — exclamou. — Tenho que ir ao m...

CIRANDA, CIRANDINHA...

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Suas pernas se moviam de um lado para o outro, aparentava estar dormindo, mas por estes movimentos, podia-se deduzir que fingia. Fingia porque doía menos do que, de fato, olhar para a realidade que a cercava. Vestindo um gorro, chinelos, meias que abraçavam seus pés inchados, queixava-se de frio. Se remexia inteira, parecia cantar em sua mente uma música tranquila e doce, que a fazia fechar os olhos e sorrir. O ritmo de seu remelexo era o mesmo, o que me fazia confirmar que ela estava numa espécie de ritmo repetitivo em seu cérebro tão ocupado ou tristonho. Indaguei-me o que esta senhora tinha feito antes de eu encontrá-la naquele estado numa noite de novembro, com cheiro forte de urina amarela de dias passados. Abriu os olhos.  — Que frio! Muito frio! Ah! - Gemeu.  Me questionava se eu não sentia o mesmo, me fitando com aqueles olhos caídos. Eu a respondi dizendo que não, e que estava apenas de calça porque era costume. Ela desviou o olhar, passou a ver aqueles pr...

Entrevista para o "Escritores em Cena"

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  Em outubro de 2024, Allissom André participou do podcast Escritores em Cena, entrevistado por Fernanda Sabbag. No episódio, Allissom conversou sobre o processo criativo dos autores e compartilhou suas experiências pessoais enquanto criador de estórias.

A minha vida é baseada em flores

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De fato, fui ignorante ao longo deste tempo, Porque sempre tentei mudar a minha origem, Mas agora percebo o porquê das coisas, O porquê de eu adorar cor e energia Que exalam e mostram demasiada alegria. É que eu sou filho de 22 de setembro, Primeiro dia da primavera de 2002, Nascido no meio de tanta gente, Na manhã de um domingo quente.

A vida é uma luta diária

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Noite de tempestade. Trovões estrelavam a trilha sonora e os relâmpagos davam brilho à escuridão que se alastrara. Jorge se encontrava, neste momento, ilhado, em meio a uma enchente que alagou a avenida Afonso, próxima de sua casa. Faltava pouco para chegar ao seu canto de repouso. Imaginava, em sua cabeça, chegar em casa, abrir aquela garrafa de vinho, colocar a música no alto e desfrutar daquele momento único que não retornaria em nenhum momento da eternidade. Ao chegar ao seu lar, lembrou que não tinha ovo, nem muito menos suco. Tomou um copo d'água e sentou-se com seu celular na mão. Deixou a música tocar enquanto olhava para aquele teto e paredes nus, refletindo. Jorge sonhava que um dia aquilo tudo se transformaria, e o início de sua casa se tornaria o início de um reino. A questão é que tudo isso leva tempo, e ninguém consegue dizer com precisão quanto tempo cada coisa deve levar. Para comer, decidiu fritar o resto de salsicha congelada que ele mesmo guardara, co...

A última vez que vi a lua

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Uma xícara de café, uma tensão no ar e um aperto no peito. Era o que eu via e sentia no momento em que minha mãe lançou um olhar de desprezo em minha direção. Não disse palavra nenhuma e nem esboçou outra reação a não ser aquela.  Era o meu aniversário que se aproximava, e pela primeira vez, tive medo de comemorar mais um ano de vida. As dúvidas clássicas de um jovem adolescente vieram à tona na minha mente: "O que irei fazer?" "Quando irei morar sozinho?" "É hora de arrumar um emprego?", me questionei.  Toda manhã era a mesma coisa, e eu já imaginava que seria diferente na manhã do dia dito especial, e isso me assustava muito.  Poderiam fazer uma grande surpresa já esperada, já que é comum fazer surpresas para mim no dia do meu aniversário - já estou acostumado, mas a surpresa deste ano promete.  Na escola, todos comentavam dos aniversários dos outros. Ninguém comentava sobre o meu. Ele era um dos meus únicos amigos da escola, e esse apelido foi dado a el...