Na quarta-feira, comprarei o peixe
Em todas as segundas, como um hábito há mais de cinco anos, o tempo que possui de casada, Joana costuma preparar o almoço da semana e congelá-lo, na intenção de economizar tempo de cozinha para fazer as outras tarefas da casa — como cuidar das crianças para que elas vão para a escola, limpar a casa, para deixá-la digna de uma fotografia modelo e outras tarefas domésticas que não incluam o fogão. Na última segunda, fez a mesma coisa de sempre, sem se queixar, e desta vez, cantarolava uma música que ouvia quando conheceu Beto, seu esposo.
— Você é a mesma estrela que me machuca e cura... — cantou bem alto o refrão. Cortava, neste momento, a carne, enquanto cozinhava o arroz. A pia estava suja, cheia de panelas usadas, e sobre a pia havia também cascas abertas de ovo, resto de folhas que não foram usadas para a salada, e o lixo estava aberto, pois assim, ficava mais fácil de jogar esses elementos na lixeira, mesmo que ela não fizesse isso.
As crianças estavam na escola, era uma e meia da tarde, tinha voltado da escola há cerca de vinte e cinco minutos, e começou a cozinhar também há pouco, depois de uma soneca de frente para a televisão. Abriu a geladeira atrás de alguma outra mistura, que pudesse deixar o gosto da comida semanal um pouco diferente.
— Droga! Só tem carne e ovos. Todo dia terá o mesmo sabor. Preciso depois pedir dinheiro a Beto para comprar o peixe e comê-lo na quinta. Quinta tem que ser especial. — disse para si mesma, e logo voltou a cantarolar.
De repente, ouve um forte estrondo. Era a porta da entrada da casa. Beto chegara estressado, de semblante fechado e desabotoando a roupa.
— O que houve, querido? — perguntou Joana, preocupada. — É alguma coisa do trabalho? — pegou as suas roupas e as estendeu na porta da sala. Sente-se para que possamos conversar.
Ao passar a mão nas costas do marido, Joana levou um tapa, que a pegou de surpresa e a fez lacrimejar.
— O almoço ainda não está pronto?
— Não sabia que você viria mais cedo. Me perdoe, Beto, pensei que você estivesse voltando mais tarde hoje.
— Você está me provocando? Está brincando com a minha cara, acha que eu sou um vagabundo? — e deu um novo tapa no rosto da mulher.
Joana caiu em lágrimas, sentou-se de cócoras e começou a chorar. Beto se estressou ainda mais ao ver a mulher frágil optar por soluçar em vez de cozinhar e preparar a mesa, mas foi ao banheiro para não ver a cena. Ele costumava dizer-lhe lindas palavras, e levá-la para lindos lugares em família, tirar belas fotos, planejar belas ideias, prometer coisas, lindas coisas.
Joana se levantou, limpou as lágrimas e voltou para o fogão, percebeu que por pouco não queimou o arroz, e se sentiu aliviada de não precisar apanhar novamente por um outro motivo. Quando Beto saiu do banheiro, ela se desculpou e disse que ficaria atenta aos horários de serviço do marido e que tinha se dispersado com uma música que cantarolava. O principal fator era, na verdade, o atraso das crianças na porta da escola, que queriam abraçar a mãe e dizer mil palavras de afeto, e isso a fez chegar mais tarde em casa. De qualquer maneira, Joana começou a descascar as cenouras para fazer a salada, e se sentiu envergonhada quando o marido viu a bagunça que fez na cozinha.
— Eu já arrumo tudo, amor, eu prometo, eu arrumo. Eu estava para fazer isso depois de descascar as cenouras.
Um silêncio pairou no ar. Beto abriu a geladeira e não viu muita coisa. Se sentou no banco da cozinha e olhou a mulher cozinhar. Joana se sentiu desconfortável, mas não queria sentir a dor, a angústia e o medo.
— Carlos parece ter viajado e deixado os gatos na casa sem assistência. Você ficou sabendo de algo? — Joana jogou no ar. O marido se levantou, chegou perto dela e acariciou a sua nuca. — Aliás, amor, na quarta-feira, eu comprarei o peixe.
E assim tiveram uma conversa decente, acalmaram-se os ânimos, tiveram uma ótima tarde, para que tudo se repetisse em alguns dias.
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