Ah, que morte mais besta!
Estou revoltado com tudo o que observo e acompanho. Já fiz trinta e cinco anos de morto e estou provando com os meus próprios olhos e sensações algo que sempre me contaram. Não sou nada! Nunca fui nada neste mundo infeliz! Ah, tamanha é a raiva que corre no lugar do sangue que habitava as minhas veias. Quer dizer, então, que tudo o que vivi foi em vão? Nada serviu de nada, o trabalho duro e árduo que tive para criar todos os meus filhos resultou em mais miséria e desconhecimento da minha própria pessoa. Tudo o que fiz, então, foi passageiro! Vivi uma vida de quase oitenta anos, lutei em guerras e viajei os quatro cantos do mundo, cinco, se contarem alguns outros espaços que não ouso detalhar, porém nada disso ficou registrado na memória de ninguém a não ser a minha. Criei meus filhos, no início da vida e no fim dela, debaixo de um barraco de madeiras e plástico, pois eu costumava mudar de endereço toda vez que a polícia batia na porta mandando-nos nos retirar, e aí eu ia para outr...